ha pouco mais de um ano, R. está obcecado por um amigo. R. só faz falar do menino, de como ambos nasceram um para o outro, de como o cara é especialmente inteligente, e engraçado, e perspicaz. como o cara se importa com ele, como é magico o tempo que passam juntos conversando sobre qualquer coisa. detalhe é que o garoto em questão é hetero e nunca fez nada que pudesse ser considerado uma 'aproximação efetiva' para alem da amizade. mas, por outro lado, nunca se mostrou realmente incomodado com as inúmeras investidas indiretas de R. resumindo: um caso classico de obsessão.
os meninos do grupo passaram esse tempo todo dizendo que o tal do garoto é gay, mas que ainda não sabe disso. ou que estava no minimo apaixonado de leves por R e coisas do gênero. eu, ao contrario, sempre disse que o tal do cara, assim como qualquer ser humano, adora uma boa shiatsuo no ego, e só. R. por sua vez, na sua condição de obcecado, tende a idealizar o menino cada vez mais. ja ultrapassou a linha do 'apaixonado' faz tempo.
eu acho que nunca consolei R. com relação a essa situação. na verdade, eu meio que decidi ironizar tudo isso desde o começo. em parte porque eu mesma estive na pele de R. durante 3 anos e achei que assim conseguiria recuperar um pouco de orgulho próprio, retrospectivamente. pura idiotice e imaturidade. em parte porque acho que amigos devem falar o que de fato pensam.
ha duas semanas, R. se declarou completamente para o cara. disse tudo. disse, aos prantos (sério) que o amava, que sonhava com ele, que sabia que não tinha chances ja que o cara é hetero, etc etc etc. graduação com honra ao mérito no curso de melodrama avançado das faculdades integradas maria do bairro.
eu nunca disse para o cara que fiquei obcecada que gostava dele. mas isso não me impediu de fazer peripécias talvez piores que as de R. hoje penso que se apaixonar até perder o limite é como uma realização.
num mundo com cada vez menos sentido, fluido e volátil, onde o pós-modernismo reina quase-absoluto, você tem a chance de ser um herói. na verdade, o herói da sua própria vida, com uma missão nobre e bela e eterna. hoje, sinto que estou, de certa forma, vacinada contra isso. que nunca mais me viciarei tanto em alguem. não sei se isso é verdade. não tenho certeza de que, se for o caso, isso é exatamente o melhor que poderia ter me acontecido.
compartilhamos a mesma incerteza
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