09 Outubro 2011

one

como se as coisas ja não estivessem ruins o bastante, um conhecido morreu na ultima sexta. dá trabalho escrever o quanto ele de fato era só um conhecido, mas eu realmente fiquei muito triste. porque ele fazia parte de algumas das minhas memórias de infancia menos ruins.

mesmo depois de anos essas memórias meio que se mantiveram intactas, sabe? camadas e camadas dos sentimentos mais contraditórios mas elas eram as mesmas. só que agora isso mudou porque eu sei que aquele cara grande, forte e sorridente, aquele samurai gigante, morreu.

e estava simplesmente horrivel dentro do caixão. parecia um boneco de cera, pequeno, raquitico, por causa da quimeoterapia. a coisa toda foi tão absurda, eu digo o cenário. ele estava usando um boné. usando um boné dentro de um caixão. quando vi aquilo, eu ri, ri dentro da minha cabeça. do jeito que as pessoas internadas em hospicios riem. e ainda dou risada quando lembro, enquanto choro e escrevo isso. ele morreu, ele não conseguiu.

essa semana eu tentei fazer o que poderia fazer para ajudar: doar plaquetas. ele, obviamente, não conseguia produzir as próprias. lembrando dele no caixão eu me pergunto como ele ainda conseguia até mesmo respirar sozinho, mas, enfim. fui mais para me dar um pouco de paz interior, para lavar as minhas mãos, eu digo. mas não pude. minhas veias não são grossas o bastante, ao que parece.

cheguei no ponto que não consigo mais pensar sobre o que tem acontecido. não consigo tirar de tudo isso lições ou conclusões. ou posts minimamente inspirados.nem mesmo escrita de livre-associação ou só aquelas palavras impublicáveis. eu não consigo dar um nome para os ultimos meses. meu vocabulário é muito curto, é como se eu não fosse fluente nem no portugues. não a toa, eu suponho, tenho tido mais e mais vontade de aprender alemão ultimamente. tenho essa impressão de que eles tem uma unica palavra para esses sentimentos. e que se eu soubesse essa palavra então eu me sentiria melhor.

eu não consigo nem ao menos ordenar tudo isso que vem acontecendo cronologicamente sem antes colapsar. é como se ainda estivessem acontecendo. eu não sei como me sinto sobre essas coisas, eu só sinto essas situações da mesma forma que ha 2 meses. não é como se eu pudesse apreende-las ou dar um sentido qualquer. eu ainda nem posso coloca-las todas numa caixa e escrever "não lidar com isso" ou "toxico" ou "reciclavel" porque estão espalhadas por toda parte. eu passo o dia tropeçando nelas. isso, tropeçando.

ele só tinha 34 anos, por deus. ele estava tão irreconhecível, com uma aparencia tão velha que eu as vezes acho que não era ele. que não era o cara das minhas memórias de infancia que só aparece sorrindo. penso que talvez fosse outra pessoa.se não era ele, então quem era? mas aí lembro que todos que poderiam estar ocupando o lugar dele no caixão na verdade estavam de pé, no velório. e ele não estava entre as pessoas que estavam de pé, conversando em grupos. porque ele estava deitado, morto.

eu me segurei para não chorar no velório, porque, né, eu nem conhecia o cara de fato. geral iria olhar e wtf essa x aí chorando? mas talvez eu não tenha chorado porque não estaria fazendo-o por ele, mas por mim mesma. pelo menos na maior parte.

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e na fazenda tinha um pato
ia ia ohh